Um prontuário médico com inteligência artificial continua sendo um documento clínico sob responsabilidade do médico. A IA pode ajudar a organizar uma consulta, mas o texto final precisa representar o que foi observado, perguntado, examinado, decidido e orientado — sem completar lacunas por plausibilidade.
A diferença entre um rascunho útil e um registro perigoso está na revisão. Um sistema pode reorganizar uma conversa em HMA, antecedentes, exame, avaliação e plano, mas não sabe sozinho se uma frase foi dita pelo paciente, pelo acompanhante ou pelo profissional. Também pode perder negações, trocar a ordem dos eventos ou transformar uma possibilidade em certeza. Por isso, a interface e o fluxo devem deixar claro que a saída é proposta de documentação. O médico deve revisar antes de assinar, salvar, compartilhar ou usar o texto como base para outra decisão. Confirmar identificação e contexto do atendimento. Checar datas, duração, início e evolução dos sintomas. Conferir medicamentos, alergias, doses e uso real. Distinguir achado, relato, hipótese e conduta. Remover qualquer frase que não possa ser sustentada pela consulta.
Na história, o principal risco é a fabricação de detalhes: um sintoma associado, um resultado que não foi informado ou uma negativa ampla demais. No exame físico, o risco é maior ainda: a IA não deve preencher ausculta, sinais vitais ou exame abdominal que não foram realizados ou registrados. Na avaliação e no plano, verifique se a redação mantém o grau de certeza correto. 'Considerar', 'suspeitar' e 'confirmar' não são equivalentes. Uma conduta só deve aparecer como decisão quando foi efetivamente tomada e revisada pelo médico. Identificação: paciente, data, profissional e motivo do atendimento. Fatos: sintomas, sinais, exames e informações fornecidas. Interpretação: problemas e hipóteses com linguagem proporcional à evidência. Plano: condutas, orientações, retorno e encaminhamentos realmente definidos. Pendências: perguntas ou resultados que ainda precisam de confirmação.
Uma saída útil pode organizar: 'refere tosse há cinco dias, sem febre informada; nega dispneia ao repouso; não foram registrados sinais vitais; avaliar frequência respiratória e saturação'. Isso preserva a ausência de dado e produz uma próxima ação verificável. Uma saída insegura seria escrever 'paciente afebril, eupneico e com saturação normal' quando esses dados não apareceram. A frase parece clínica, mas é uma fabricação. A revisão deve preferir uma lacuna explícita a um detalhe plausível.
O Código de Ética Médica e as regras de proteção de dados não deixam de se aplicar porque uma etapa foi automatizada. O médico precisa saber qual ferramenta está usando, para qual finalidade, quem pode acessar o material e qual é o processo de correção quando houver erro. Também é importante separar o texto assistido do julgamento profissional. A ferramenta pode ajudar a redigir; a decisão de incluir, excluir, corrigir e assinar é do médico. Em ambiente institucional, documente as regras internas de acesso, retenção e auditoria.
Posso salvar no prontuário tudo o que a IA transcreveu? Não automaticamente. O conteúdo precisa ser revisado, corrigido e reduzido ao que é clinicamente pertinente e sustentado pela consulta. A IA pode preencher o exame físico? Não deve inventar achados. Se o exame não foi realizado ou não foi registrado, a documentação deve preservar essa ausência. Quem responde pelo texto produzido com IA? O uso de uma ferramenta não transfere a responsabilidade profissional. O médico deve revisar o documento final e seguir as regras éticas, legais e institucionais aplicáveis.
Fontes institucionais: CFM — Resolução CFM nº 2.454/2026 e notícia oficial sobre IA na medicina; CFM — Código de Ética Médica; Planalto — Lei nº 13.709/2018 (LGPD), texto compilado. Conteúdo educacional para profissionais de saúde e apoio à decisão; IA e calculadoras não substituem avaliação individual, protocolos locais ou julgamento médico.